quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CEMITÉRIO VELHO



Ainda quando a cidade terminava antes do final da Rua 03 de Outubro, e lá se vão mais ou menos trinta e poucos anos, eis que incrustado entre as Ruas Paissandu e Alcindo Rocha, ali estava ele. Vou chamá-lo como o conheci e como todos o chamavam: Cemitério Velho. Velho mesmo! Não sei a data de sua inauguração, mas já naquele tempo era o cemitério velho, até mesmo porque de há muito estava desativado, pois já se encontrava o atual cemitério em plena atividade.
Ora, pois ali estava ele (o cemitério velho) a nos fascinar. Moleque, na época, morando a poucos metros do dito cujo, na Rua da Independência, era ali um dos pontos preferidos por nós (a molecada) para as nossas brincadeiras, com direito a toda sorte de danações, que iam desde o simples esconde-esconde entre os túmulos, à caça de passarinhos e lagartixas com nossas terríveis baladeiras, até pregarmos sustos às pessoas, visto que naquele tempo o lugar era ermo e para, ali, passar tinha que ser por uma espécie de trilha, obrigando às pessoas a andar por cima da calçada do cemitério, o qual tinha o muro relativamente baixo, deixando à mostra uma boa visão de seu interior. Era nesses instantes que nós nos escondíamos e quando os menos avisados por ali vinham principalmente mulheres, nossas vítimas preferidas, saíamos de chofre, soltando terríveis berros e gritos, ou jogando areia por sobre o muro em cima das pessoas que, por estarem a andar na calçada de um cemitério (embora desativado), tinham motivos de sobra para se sentirem apreensivas. As carreiras e sustos destas era nosso deleite. Ríamos – a bandeiras despregadas – aquele riso puro e, ao mesmo tempo diabólico, de moleque travesso que se regozija com o resultado de sua travessura.
Por mais que nossos pais nos avisassem para que lá não fôssemos, pois para nos amedrontar diziam “cobras e lagartos” coisas como: que poderíamos pegar doenças terríveis, pois o lugar era contaminado; que havia cobras venenosas (o que nos fundo não era mentira), pois matávamos muitas delas, venenosas, tipo: coral, cascavel... Outras, não: papa ova, muçuranas (cobra preta), etc. Mas nada do que nos diziam - e até mesmo os castigos - não nos dissuadia ou muito pelo contrário algo de mágico, invisível e misterioso, empurráva-nos cada vez mais para o nosso refúgio (Cemitério Velho). Ali era nosso terreno. Conhecíamos cada passo, cada túmulo, cada catacumba, eles eram nossos parceiros e confidentes. Tinha aquela toda de mármore preto e branco com um epitáfio de letras douradas e foto em alto relevo. Pertencia a um general – não lembro o nome- data de mil e oitocentos e qualquer coisa. Nós olhávamos com admiração – general, mármore, luxo, riqueza – muitas vezes até evitávamos apedrejá-la, pois era a nossa preferida. Tinham aquelas já abertas e corroídas pelo tempo. Aquela outra que, à noite, servia de dormitório para um maluco da época - Chico Doido. Além de muitas outras, cada qual com suas peculiaridades.
O certo é que, ali, no cemitério velho, tínhamos tudo que queríamos para a realização de nossas incontáveis brincadeiras. Conhecíamos palmo a palmo o nosso reduto. Pulávamos por cima dos túmulos e catacumbas com a agilidade de um bando de babuínos, na copa das árvores.
Certo dia, no entanto, fomos surpreendidos por pessoas estranhas, homens e máquinas e quedamo-nos boquiabertos, quando o trator entrou no nosso “Campo Santo”, bufando e fazendo enorme barulho. A máquina monstruosa foi vencendo construções seculares, destroçando, despedaçando e transformando tudo em entulho, tudo que encontrava pela frente. Em poucas horas, nada mais restava do que um simples terreno aplainado.
Vimos tudo aquilo empoleirado em cima de um pedaço de muro (último a ser derrubado), com um misto de revolta e fascinação.
Hoje, aquele pedaço faz parte de uma paisagem da cidade totalmente diferente. Ali está incrustada a Praça “Sinhá Trévia”, popularmente conhecida como Praça da Rodoviária; para alguns, (no meu caso), Praça da Saudade. Saudade sim, dos bons tempos ali vividos, dos folguedos e brincadeiras que ficaram registrados em minha lembrança como marcas indeléveis. São reminiscências saudosas de uma época de outrora que o tempo, em sua marcha inexorável, levou.
Esse mesmo tempo só não pode apagar da minha memória a saudade que sinto de ti, querido Cemitério Velho.

Inácio Santos

In literário: dezembro 1998, Flamenga e Boqueirões.
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